sábado, 20 de janeiro de 2018

A DECLARAÇÃO DE PARIS


Uma Europa na qual podemos crer

https://thetrueeurope.eu/
Em maio de 2017, um grupo de estudiosos e intelectuais conservadores se reuniu em Paris. Eles foram reunidos por sua preocupação comum sobre o estado atual da política européia, da cultura, da sociedade e, sobretudo, do estado da mente e da imaginação européias. Através de ilusão e auto-engano e distorção ideológica, a Europa está dissipando sua grande herança civilizadora.
Em vez de simplesmente torcer as mãos com uma ansiedade infrutífera, ou adicionar mais um tomo à ampla literatura que diagnostica "o declínio do Ocidente", os participantes de Paris acreditam ser importante fazer uma afirmação e fazê-lo publicamente. Eles expressaram seu apego à "Europa verdadeira", e fizeram isso com razões que podem ser reconhecidas por todos. Ao fazê-lo, primeiro foi necessário dar uma conta desta verdadeira Europa, que está escondida sob as abstrações da moda da nossa era.
O resultado é "A Europe We Can Believe In". Esta Declaração de Paris é um apelo para uma renovada compreensão e apreciação do verdadeiro gênio da Europa. É um convite para os povos da Europa recuperar ativamente o que é melhor em nossa tradição e construir juntos um futuro pacífico, esperançoso e nobre.
Junte-se a nós nesta afirmação.
7 de outubro de 2017
https://thetrueeurope.eu/a-declaracao-de-paris/

A Europa é o nosso lar.
1. A Europa pertence-nos e nós pertencemos à Europa. Estas terras são o nosso lar, não temos nenhum outro. As razões pelas quais estimamos tanto a Europa superam a nossa capacidade de explicar ou justificar esta lealdade. Trata-se de histórias, esperanças e amores partilhados. De usos e costumes, de períodos de alegria e de dor. De experiências inspiradoras de reconciliação e da promessa de um futuro partilhado. As paisagens e os acontecimentos mais comuns estão carregados de um significado especial – para nós, mas não para outros. O lar é o local onde as coisas nos são totalmente familiares e onde somos sempre reconhecidos, por muito que nos tenhamos afastado. Esta é a Europa genuína, autêntica: a verdadeira Europa. A nossa civilização preciosa e insubstituível.

Uma falsa Europa ameaça-nos.
2. A Europa, em toda a sua riqueza e grandeza, está ameaçada por uma falsa visão de si própria. Esta falsa Europa imagina-se ser o apogeu da nossa civilização, mas ela, na verdade, vai confiscar-nos as nossas pátrias. Essa visão errada remete para exageros e distorções de virtudes que são autenticamente europeias, ao mesmo tempo que demonstra cegueira quanto aos seus próprios vícios. Ao caucionar uma leitura enviesada e caricatural da nossa História, esta falsa Europa transporta consigo, intrinsecamente, infundados preconceitos quanto ao nosso passado. Os seus porta-estandarte são órfãos voluntários, que concebem a sua condição – de apátrida – como uma nobre proeza. Sob este ponto de vista, essa falsa Europa incensa-se a si mesma por ser a precursora de uma comunidade universal, que não é nem comunidade, nem universal.

A falsa Europa é utópica e tirânica.
3. Os partidários dessa falsa Europa estão enfeitiçados pelas superstições de um progresso inevitável. Acreditam que a História está do seu lado, e esta crença torna-os arrogantes e desdenhosos, incapazes de reconhecerem os defeitos do mundo pós-nacional e pós-cultural que estão, obstinadamente, a construir. Para além disto, ignoram as verdadeiras fontes da dignidade humana, que eles mesmos afirmam estimar, aliás como nós. Ignoram e até repudiam as raízes cristãs da Europa. Por outro lado, tomam todo o cuidado para não ofender os muçulmanos que, imaginam, irão adoptar alegremente a sua perspectiva laica, secular e multicultural. Imersa nos seus preconceitos, superstições e ignorância, cega por vãs e pretensiosas visões de um futuro utópico, essa falsa Europa reprime conscientemente toda e qualquer dissidência. Isto é feito, cinicamente, em nome da liberdade e da tolerância.

Devemos proteger a verdadeira Europa.
4. Estamos a chegar a um beco sem saída. A maior ameaça para o futuro da Europa não é o aventureirismo da Rússia nem a imigração muçulmana. A verdadeira Europa está ameaçada pela asfixiante pressão que essa falsa Europa exerce sobre as nossas imaginações. As nossas nações e a nossa cultura partilhada estão a ser esvaziadas por ilusões e enganos sobre o que a Europa é e sobre o que deveria ser. Nós assumimos o compromisso de resistir a esta ameaça ao nosso futuro. Defenderemos, apoiaremos e lutaremos pela Europa genuína, a Europa à qual, verdadeiramente, todos nós pertencemos.

A solidariedade e a lealdade cívicas encorajam a participação activa.
5. A verdadeira Europa espera e encoraja a participação activa no projecto comum de vida, política e cultural. O ideal europeu assenta na solidariedade, baseado no consenso quanto a num corpo de leis que se aplica a todos, mas cujo âmbito de aplicação tem um alcance limitado. Este consenso nem sempre foi conseguido de forma compatível com uma democracia representativa. Contudo, as nossas tradições de fidelidade cívica reflectem um respeito fundamental para com as nossas tradições políticas e culturais, sejam quais forem as suas formas. No passado, os europeus lutaram para tornar os nossos sistemas políticos mais abertos à participação popular, capítulo da nossa História de que nos sentimos justamente orgulhosos. Não obstante o modo como o fizeram, por vezes através da rebelião geral, os europeus afirmaram calorosamente que, não obstante as suas injustiças e os seus fracassos, as tradições dos povos deste continente são as nossas. Esta dedicação reformista faz da Europa um lugar que procura, incessantemente, mais e mais justiça. Este espírito de progresso advém do nosso amor e da nossa lealdade para com as nossas pátrias.

Não somos sujeitos passivos.
6. Um espírito de unidade europeu permite-nos confiar nos demais no espaço público, mesmo quando não nos conhecemos. Os parques públicos, as praças e as amplas avenidas das cidades e metrópoles europeias expressam o espírito político europeu: nós partilhamos a nossa vida comum e a res publica. Nós assumimos o princípio de que é nosso dever responsabilizarmo-nos pelo futuro das nossas sociedades. Não somos sujeitos passivos, sob o domínio de poderes despóticos, sejam eles religiosos ou laicos. Também não estamos impotentes perante forças implacáveis da História. Ser europeu significa possuir um poder político e histórico. Nós somos os autores do nosso destino partilhado.

O Estado-nação é a marca identitária da Europa.
7. A verdadeira Europa é uma comunidade de nações. Temos as nossas próprias línguas, tradições e fronteiras. Contudo, sempre reconhecemos afinidade uns pelos outros, mesmo quando estivemos em desacordo ou até em guerra. Esta unidade-na-diversidade parece-nos natural. No entanto, esta afinidade é notável e preciosa, porque não é natural nem inevitável. A tradução política mais comum de unidade-na-diversidade é o império, que os reis guerreiros europeus tentaram recriar, após a queda do Império Romano. O fascínio pela forma imperial perdurou, mas o modelo de Estado-nação prevaleceu, como forma política que une povo e soberania. O Estado-nação tornou-se, desde então, a marca identitária da civilização europeia.

Não defendemos uma unidade forçada ou imposta.
8. Uma comunidade nacional orgulha-se de se governar a si própria. Exalta frequentemente as suas grandes proezas nacionais nas artes e nas ciências e compete com as outras nações, por vezes no campo de batalha. Isto causou danos à Europa, por vezes graves, mas nunca comprometeu a nossa unidade cultural. De facto, podemos constatar o contrário. À medida que os Estados-nação da Europa se estabeleceram e de modo tão distinto, uma identidade comum europeia consolidou-se e se fez mais forte. Na sequência da terrível carnificina resultante das guerras mundiais da primeira parte do século XX, emergimos ainda mais determinados em honrar a nossa herança comum. Tal, testemunha a profundidade e o poder da Europa como civilização, que é cosmopolita, no sentido apropriado. Nós não pretendemos uma unidade de império forçada ou imposta. Pelo contrário, o cosmopolitismo europeu reconhece que o amor patriótico e a lealdade cívica conduzem a um horizonte mais amplo.

O Cristianismo fomentou a unidade cultural.
9. A verdadeira Europa foi moldada pelo Cristianismo. O império espiritual universal da Igreja trouxe uma unidade cultural à Europa, sem se transformar num império político. Isto permitiu o florescimento de lealdades cívicas no seio de uma cultura europeia partilhada. A autonomia do que designamos por sociedade civil tornou-se uma característica fundamental da vida europeia. Mais, o Evangelho cristão não determina um sistema completo de leis de origem divina, pelo que a diversidade das leis seculares das nações pode ser proclamada e honrada, sem colocar em causa a nossa unidade europeia. Não foi por mero acaso que o declínio da fé cristã na Europa foi acompanhado por renovados esforços para estabelecer uma unidade política, um império de dinheiro e de burocracia, coberto de sentimentos de um universalismo pseudo-religioso, que está a ser construído pela União Europeia.

As raízes cristãs nutrem a Europa.
10. A verdadeira Europa afirma a igual dignidade de cada indivíduo, qualquer que seja o seu sexo, o seu estatuto ou a sua raça. Tal advém igualmente das nossas raízes cristãs. As nossas serenas virtudes estão inegavelmente vinculadas à nossa herança cristã: imparcialidade, compaixão, misericórdia, reconciliação, luta pela manutenção da paz, caridade. O cristianismo revolucionou a relação entre o homem e a mulher, valorizando o amor e a fidelidade recíprocos, de uma forma jamais vista até então. Os laços do casamento permitem ao homem e à mulher florescerem, em comunhão. A maior parte dos sacrifícios que fazemos são-no em benefício do nosso cônjuge e dos nossos filhos. Este espírito de abnegação constitui igualmente uma contribuição cristã para a Europa que amamos.

As raízes clássicas encorajam a excelência.
11. A verdadeira Europa inspira-se igualmente na tradição clássica. Reconhecemo-nos na literatura da antiga Grécia e de Roma. Enquanto europeus, lutamos pela grandiosidade, a coroa das virtudes clássicas. Ocasionalmente, isto conduziu a uma violenta competição pela supremacia. Nos melhores momentos, esta aspiração à excelência inspirou os homens e as mulheres da Europa a criar obras-primas musicais e artísticas de uma inexcedível beleza e a realizar extraordinários avanços na ciência e na tecnologia. As serenas virtudes dos Romanos, senhores de si mesmos, o orgulho na participação cívica e o espírito de reflexão filosófica dos Gregos nunca foram esquecidos na verdadeira Europa. Este legado é, igualmente, nosso.

A Europa é um projecto partilhado.
12. A verdadeira Europa nunca foi perfeita. Os partidários da falsa Europa não estão errados quando advogam o desenvolvimento e as reformas. Muito já foi realizado, desde 1945 e 1989, que devemos prezar e honrar. A nossa vida partilhada é um projecto em curso, não uma herança fossilizada. No entanto, o futuro da Europa depende de uma lealdade renovada às melhores das nossas tradições. Não sobre um universalismo espúrio que exige o esquecimento e o ódio a si mesma. A Europa não começou com as Luzes. As nossas pátrias bem-amadas não se realizarão com a União Europeia. A Europa verdadeira é e será sempre uma comunidade de nações independentes, por vezes ferozmente isoladas e, no entanto, unidas por um legado espiritual que, em conjunto, debatemos, desenvolvemos, partilhamos e amamos.

Estamos a perder o nosso lar.
13. A Europa verdadeira está em perigo. Os méritos da realização da soberania popular, da resistência ao império, da assunção de um cosmopolitismo capaz de amor cívico, da concepção cristã de uma vida humana e digna e de um vínculo vivo com o nosso legado clássico – tudo isto se está a desvanecer. Enquanto os partidários da falsa Europa constroem a sua falsa Cristandade dos direitos humanos universais, estamos paulatinamente a perder o nosso lar.

Prevalece uma falsa liberdade.
14. A falsa Europa enaltece-se por um empenho sem precedentes a favor da causa da liberdade humana. Esta liberdade é, contudo, muito sectária. Apresenta-se como libertação de todos os constrangimentos: a liberdade sexual, a liberdade de expressão individual e a liberdade de “ser si próprio”. A geração de 1968 considera estas liberdades como preciosas vitórias sobre um regime cultural todo-poderoso e opressivo. Consideram-se grandes libertadores, sendo as suas transgressões aclamadas como nobres proezas morais, pelas quais o mundo inteiro deverá sentir-se grato.

O individualismo, o isolamento e a ociosidade estão amplamente difundidos.
15. Para as mais jovens gerações europeias, a realidade é, contudo, muito menos bela. O hedonismo libertino conduz frequentemente ao tédio e ao profundo sentimento de inutilidade. O vínculo matrimonial foi enfraquecido. No turbilhão da liberdade sexual, os desejos mais profundos dos nossos jovens – de se casarem e constituírem as suas famílias – são amiúde frustrados. Uma liberdade, que frustra os mais profundos desejos do coração humano, transforma-se numa maldição. As nossas sociedades parecem sucumbir ao individualismo, ao isolamento, à ociosidade e à falta de um propósito. Em vez de sermos livres, estamos condenados à conformidade vazia de uma cultura guiada pelo consumismo e pelos meios de comunicação social. Cumpre-nos o dever de dizer a verdade: a geração de 1968 destruiu, mas nada construiu. Criou um vazio que hoje em dia é preenchido pelas redes sociais, um turismo massificado e a pornografia.

Somos regulados e geridos.
16. Ao mesmo tempo que ouvimos elogios a uma liberdade sem precedentes, a vida europeia torna-se cada vez mais regulamentada. Estas regras – muitas vezes concebidas por tecnocratas sem rosto, ao serviço de poderosos interesses – governam as nossas relações profissionais, as nossas decisões de negócios, as nossas qualificações educativas, os nossos meios de informação e de entretenimento. Agora, a Europa procura restringir a liberdade de expressão, uma liberdade genuinamente europeia – a manifestação da liberdade de consciência. Os alvos destas restrições não são a obscenidade nem os ataques contra a decência na vida pública. Em vez disso, a classe dirigente europeia procura restringir, manifestamente, a liberdade de expressão política. Os líderes políticos que dão voz a verdades inconvenientes sobre o Islão ou a imigração são atirados para a barra dos tribunais. A correcção política impõe tabus tão fortes que impedem qualquer desafio crítico ao status quo. Esta falsa Europa não encoraja verdadeiramente uma cultura de liberdade. Ela promove uma cultura de homogeneização ditada pelo mercado e um conformismo imposto pela política.

O multiculturalismo não funciona.
17. Esta falsa Europa congratula-se pelo seu empenho, sem precedente, em favor da causa da igualdade. Afirma promover a não discriminação e a inclusão de todas as raças, religiões e identidades. Neste domínio, houve um verdadeiro progresso, mas um utópico afastamento da realidade acabou por se impor. Ao longo da geração anterior, a Europa perseguiu um grande projecto multiculturalista. Exigir ou sequer encorajar a assimilação de muçulmanos, recém-chegados, aos nossos usos e costumes, para não falar da nossa religião, foi considerado como uma enorme injustiça. O nosso compromisso com a igualdade, dizem-nos, exige a renúncia a qualquer pretensão de que a nossa cultura seja tida como superior. Paradoxalmente, o empreendimento multiculturalista europeu, que nega as raízes cristãs da Europa, utiliza abusivamente o ideal cristão de caridade universal, de uma forma exagerada e insustentável. Exige dos europeus um grau de abnegação digno da santidade. Denunciamos a colonização das nossas pátrias e o desaparecimento da nossa cultura como a maior concretização do século XXI, um acto colectivo de auto-sacrifício, em favor do advento de uma suposta nova comunidade global de paz e prosperidade.

A má-fé aumenta.
18. Existe uma grande má-fé neste tipo de raciocínio. A maior parte daqueles que nos governam consideram, sem dúvida, a superioridade da cultura europeia, mas recusam que tal seja afirmado publicamente de modo que possa ofender os imigrantes. Perante a superioridade da cultura europeia, pensam que a assimilação se fará de maneira natural e rápida. Como um eco do pensamento imperialista de outrora, as classes governantes europeias, ironicamente, presumem que, de algum modo, pelas leis da natureza ou da História, “eles” se irão, inevitavelmente, tornar-se como “nós”, sendo inconcebível pensar que o inverso possa acontecer. Entretanto, o multiculturalismo oficial já se instalou como um instrumento terapêutico para gerir as infelizes mas “temporárias” tensões culturais.

A tirania tecnocrática aumenta.
19. Existe uma má-fé ainda mais presente e mais sombria em acção. Ao longo da última geração, um número cada vez maior de membros da nossa classe dirigente decidiu que os seus próprios interesses seriam favorecidos por uma acelerada mundialização. Desejam criar instituições supranacionais que sejam capazes de controlar, sem os inconvenientes da soberania popular. Torna-se cada vez mais claro que o “défice democrático” no seio das instituições europeias não resulta simplesmente um problema técnico, que deva ser resolvido por meios técnicos, mas de um compromisso fundamental, defendido com zelo. Legitimados por uma suposta “necessidade económica” ou pelas exigências de desenvolvimento autónomo de legislação internacional de direitos do homem, que escapa a qualquer controlo, os mandarins supranacionais da União Europeia confiscam a vida política da Europa, respondendo a todos os que os questionam com uma resposta tecnocrática: Não há alternativa. Esta é a suave, mas crescentemente real, tirania com que nos confrontamos.

A falsa Europa é frágil e impotente.
20. A arrogância desta falsa Europa está a tornar-se cada vez mais evidente, apesar dos grandes esforços dos seus partidários para manter ilusões confortáveis. Acima de tudo, esta falsa Europa revelou-se ser muito mais fraca do que toda a gente imaginava. Os entretenimentos populares e o consumo material não sustentam a vida cívica. Privadas de ideais superiores e desencorajadas, pela ideologia multiculturalista, de toda a expressão de orgulho patriótico, as nossas sociedades têm dificuldade de gerar vontade de se defenderem. Mais ainda, nem uma retórica inclusiva, nem um sistema económico impessoal dominado por grandes corporações internacionais conseguirão renovar a confiança cívica e a coesão social. Novamente, devemos ser francos: as sociedades europeias estão a desagregar-se. Basta abrir os olhos para ver uma utilização inédita do poder do Estado, da engenharia social e da doutrinação no sistema educativo. Não é apenas o terror islâmico que traz para as nossas ruas soldados fortemente armados. A polícia antimotim é doravante necessária para reprimir grupos de protesto e até para gerir multidões embriagadas de adeptos de clubes de futebol. O fanatismo das lealdades futebolísticas é um sinal desesperado da profunda necessidade humana de solidariedade, uma necessidade que, de outro modo, permanece por satisfazer nesta falsa Europa.

Uma cultura da repúdio instalou-se.
21. As classes intelectuais europeias estão, infelizmente, entre os primeiros partidários ideológicos da arrogância desta falsa Europa. As universidades são, sem dúvida alguma, uma das glórias da civilização europeia. Onde outrora se procurava transmitir a cada nova geração a sabedoria dos séculos passados, hoje, na maioria das universidades, o pensamento crítico consiste na simplista rejeição do passado. Um ponto de referência essencial do pensamento europeu foi a rigorosa disciplina da honestidade intelectual e da busca da objectividade. No entanto, ao longo das duas últimas gerações, esse nobre ideal foi transformado. O ascetismo, que antigamente visava libertar o espírito da tirania da opinião dominante, deu lugar a uma complacente e irreflectida animosidade contra tudo o que é nosso. Esta posição de repúdio cultural permite, de forma simples e sem esforço, ser “crítico”. Ao longo da última geração, isto foi repetido nas aulas e nas conferências, a ponto de se tornar uma doutrina, um dogma. Professar este novo credo permite ser acolhido templo dos “iluminados”, ao mesmo tempo que constitui um sinal de elevação espiritual. Por consequência, as nossas universidades tornaram-se agentes activos da destruição cultural em curso.

As elites arrogantes fazem ostentação das suas virtudes.
22. As nossas classes governantes ampliam os direitos humanos. Trabalham para combater as alterações climáticas. Estão a construir uma economia de mercado mais integrada globalmente e harmonizam as políticas fiscais. Supervisionam os movimentos com vista à igualdade de géneros. Fazem tanto por nós! Que importam os expedientes que utilizaram para ocuparam os cargos que ocupam? Que importa se os povos europeus se tornam cada vez mais cépticos relativamente à sua administração?

Uma alternativa é possível.
23. Este crescente cepticismo é plenamente justificado. Hoje, a Europa está dominada por um materialismo sem finalidade, que parece ser incapaz de motivar os homens e as mulheres a terem filhos, constituírem família. Uma cultura de repúdio privará as próximas gerações do seu sentido de identidade. Alguns dos nossos países possuem regiões onde os muçulmanos vivem numa autonomia informal em relação às leis locais, como se fossem colonizadores e não como compatriotas. O individualismo isola-nos uns dos outros. A mundialização transforma as perspectivas de vida de milhões de pessoas. Quando são postas em causa, as nossas classes governantes afirmam que se limitam a fazer o que lhes é possível para se adaptarem ao inevitável, ajustando-se às necessidades implacáveis. Não existe outro caminho e é irracional resistir. Não há alternativa. Os que se opõem a esta fatalidade são acusados de sofrer de nostalgia, pelo que merecem a condenação moral, como racistas ou fascistas. À medida que as divisões sociais e a falta de confiança nas instituições se tornam cada vez mais visíveis, a vida política europeia vai-se tornando cada vez mais marcada pela cólera e pelo rancor, e ninguém sabe ao que tudo isto nos conduzirá. Não devemos continuar por este caminho. Devemos rejeitar a tirania da falsa Europa. Uma alternativa é possível.

Devemos repudiar a pseudo-religião.
24. O trabalho de renovação começa com uma reflexão teológica. O universalismo e as pretensões universalistas desta falsa Europa revelam estarmos perante um empreendimento pseudo-religioso, dotado do seu próprio credo e os seus anátemas. Este é um ópio poderoso que paralisa a Europa enquanto corpo político. Devemos insistir no facto de que as aspirações religiosas são do domínio da religião e não do domínio da política, e, ainda menos, do da administração burocrática. A fim de recuperarmos a nossa capacidade de acção política e histórica, é imperativo, de novo, secularizar a vida política europeia.

Devemos restaurar um verdadeiro liberalismo.
25. Isto exige-nos renunciar à linguagem falaciosa que evita a responsabilidade e fomenta a manipulação ideológica. O discurso da diversidade, da inclusão e do multiculturalismo está vazio. Muitas vezes, esta linguagem é utilizada de modo a fazer passar fracassos por sucessos: a dissolução da solidariedade social seria “na realidade” considerado um sinal de acolhimento, de tolerância e de inclusão. Isto é linguagem de marketing, uma linguagem que tem por finalidade obscurecer a realidade, ao invés de esclarecer. Devemos recuperar um respeito permanente pela realidade. A linguagem é um instrumento delicado e pode ser corrompida quando é usada como uma arma. Devemos ser promotores do decoro e da decência linguística. O recurso à denúncia é o sinal da decadência do nosso tempo. Não devemos aceitar a intimidação verbal e muito menos por ameaças de morte. Devemos proteger os que falam de forma razoável, mesmo que não concordemos com a sua opinião. O futuro da Europa deverá ser liberal, na melhor acepção do termo, o que significa o compromisso com um intenso debate público, livre de toda a ameaça e violência e de coerção.

Precisamos de estadistas responsáveis.
26. Quebrar o encantamento da falsa Europa e da sua utópica cruzada pseudo‑religiosa por um mundo sem fronteiras significa encorajar um novo sentido político e um novo tipo de estadista. Um bom líder político está ao serviço do bem-comum de um povo. Um bom estadista considera a nossa herança europeia partilhada e as nossas tradições nacionais particulares como magníficas e vivificantes, mas também como dons frágeis. Não rejeita esta herança e não arrisca perdê-la, perseguindo sonhos utópicos. Tais líderes desejam sinceramente as honras concedidas pelo seu próprio povo, não procurando a aprovação da “comunidade internacional”, que mais não é do que um instrumento de relações públicas de uma oligarquia.

Devemos renovar a unidade nacional e a solidariedade.
27. Reconhecendo o carácter particular das nações europeias, bem como a sua indelével marca cristã, não devemos deixar-nos enredar nas falsas afirmações dos multiculturalistas. Uma imigração sem assimilação é uma colonização, e esta deve ser rejeitada. Esperamos legitimamente que aqueles que emigram para as nossas terras se integrem nas nossas nações, adoptando a nossa forma de vida, os nossos usos e costumes. Esta expectativa deve ser sustentada por políticas consistentes. A linguagem do multiculturalismo foi importada da América. O grande período de emigração para os Estados Unidos da América surgiu no início do século XX, num período de crescimento económico extraordinariamente rápido, num país que não tinha virtualmente um Estado-providência, mas com um sentido de identidade nacional muito pronunciado, que os imigrantes eram chamados a assimilar. Depois de ter admitido um número considerável de imigrantes, os Estados Unidos fecharam quase completamente as suas portas durante quase duas gerações. A Europa deveria aprender com essa experiência americana, em vez de adoptar ideologias contemporâneas dos Estados Unidos. Essa experiência sublinha o facto de que o trabalho é um poderoso motor de assimilação, que uma política social generosa pode impedi-la e que uma liderança política prudente, por vezes, pode obrigar a reduções na imigração, mesmo que drasticamente. Não devemos permitir que a ideologia multiculturalista deforme o juízo político sobre como melhor servir o bem-comum, o que requer comunidades nacionais com suficiente unidade e solidariedade para reconhecerem o seu próprio bem como bem-comum.

Só os impérios são multiculturais.
28. Após a segunda guerra mundial, a Europa ocidental soube fazer crescer vigorosas democracias. Depois da queda do império da União Soviética, as nações da Europa central restauraram a vitalidade das suas instituições cívicas. Estes são algumas das mais preciosas proezas da Europa. Serão perdidas se não abordarmos as questões da imigração e da alteração demográfica das nossas nações. Só os impérios são multiculturais, que é no que se tornará a União Europeia se não conseguirmos consagrar a renovação da solidariedade e da unidade cívica como critérios para avaliação das políticas de imigração e as estratégias para a sua assimilação.

Uma adequada hierarquia contribui para o bem-estar social.
29. Muitos pensam erradamente que a Europa está a ser agitada apenas pela controvérsia em torno questão da imigração. Na verdade, esta é apenas uma dimensão da erosão social geral que deve ser revertida. Devemos recuperar a dignidade de certos papéis na sociedade. Os pais, os educadores e professores têm o dever de formar aqueles que se encontram sob a sua responsabilidade. Devemos resistir ao culto da especialização em detrimento da sabedoria, do tacto e da busca de uma vida culta. Não poderá haver renovação da Europa sem a determinada rejeição de um igualitarismo exagerado e da redução da sabedoria ao conhecimento técnico. Reconhecemos os êxitos políticos da era moderna. Cada homem e mulher deve ter igualdade de voto. Os direitos fundamentais devem ser protegidos. Contudo, uma democracia sã requer hierarquias sociais e culturais que encorajem a busca da excelência e que honrem aqueles que servem o bem-comum. Devemos restaurar um sentido de grandeza espiritual e honrá-lo conforme lhe é devido, de modo que a nossa civilização possa contrariar o crescente poder que advém, actualmente, quer da mera riqueza material, quer do vulgar entretenimento.

Devemos restaurar a nossa cultura moral.
30. A dignidade humana está para além do direito de não ser importunado e das doutrinas internacionais dos direitos do homem, que não esgotam as exigências de justiça e, ainda menos, as do bem. A Europa deve reencontrar um novo consenso sobre a cultura moral, de modo que os povos possam ser orientados para uma vida mais virtuosa. Não devemos permitir que uma falsa concepção da liberdade impeça o uso prudente da lei para prevenir o vício. Devemos ser indulgentes para com a fraqueza humana, mas a Europa não pode crescer e desenvolver-se sem a restauração de uma aspiração comum a uma conduta elevada e à excelência humana. Uma cultura que promove a dignidade decorre da decência e da assunção dos deveres de cada um, em cada fase da vida. Devemos renovar o mútuo respeito entre as classes sociais, que é característico de uma sociedade que valoriza as contribuições de todos.

A Educação necessita uma reforma.
31. Ao mesmo tempo que reconhecemos os aspectos positivos da economia de mercado, devemos resistir às ideologias que procuram organizar toda a sociedade a partir da lógica de mercado. Não podemos permitir que tudo esteja à venda. Mercados prósperos exigem o primado da lei, não devendo as leis limitar-se a assegurar simplesmente a eficiência económica. Os mercados funcionam melhor quando estão enquadrados por instituições sociais robustas, organizadas segundo os seus próprios princípios, distintos dos da lógica de mercado. O crescimento económico, embora benéfico, não corresponde ao bem mais elevado. Os mercados devem ser orientados para fins sociais. Actualmente, o gigantismo empresarial ameaça até a soberania política. As nações devem cooperar para dominar a arrogância e a indiferença das forças económicas globais. Defendemos o uso prudente do poder governamental para prosseguir bens sociais não-económicos.

Os mercados devem ser ordenados em vista de finalidades sociais.
32. Cremos que a Europa tem uma história e uma cultura dignas de serem conservadas e mantidas. As nossas universidades, no entanto, têm amiúde traído a nossa herança cultural. Devemos reformar os programas educativos para encorajar a transmissão da nossa cultura comum em vez de doutrinar os mais jovens para uma cultura de repúdio. Os professores e os tutores a todos os níveis têm um dever para com a memória histórica. Deveriam sentir-se orgulhosos da sua função enquanto ponte entre as gerações do passado e as gerações vindouras. Devemos renovar a alta-cultura da Europa, definindo o sublime e o belo como padrão, rejeitando a degeneração das artes numa forma de propaganda política. Isto requerer o surgimento de uma nova geração de mecenas. As empresas e as burocracias têm-se mostrado pobres patronos das artes.

O casamento e as famílias são essenciais.
33. O casamento é o fundamento da sociedade civil e constitui a base da harmonia entre os homens e as mulheres. Trata-se de um vínculo íntimo organizado em torno da manutenção de um lar durável e da criação dos filhos. Afirmamos que os nossos papéis mais fundamentais em sociedade enquanto seres humanos são os de pais e de mães. O casamento e os filhos estão intrinsecamente ligados a toda a concepção e desenvolvimento pleno do ser humano. Os filhos exigem o sacrifício daqueles que os fazem vir ao mundo. Este sacrifício é nobre e deve ser honrado. Apoiamos políticas sociais prudentes que encorajam e reforçam o casamento, os nascimentos e a educação infantil. Uma sociedade que fracassa no acolhimento dos seus próprios filhos não tem futuro.

O populismo deve ser rectificado.
34. Existe uma grande ansiedade na Europa, actualmente, a respeito da ascensão do chamado “populismo” – apesar deste termo nunca ser verdadeiramente definido, e ser utilizado sobretudo como uma injúria. Temos as nossas reservas em relação a este fenómeno. A Europa deve apelar à sabedoria das suas tradições, em vez de confiar em slogans ou com apelos emotivos à divisão. Mesmo assim, não deixamos de considerar que este fenómeno pode representar uma rebelião saudável contra a tirania da falsa Europa, que apelida de “anti-democrática” toda e qualquer ameaça ao seu monopólio de legitimidade moral. O assim denominado “populismo” questiona a ditadura do status quo, o “fanatismo do centro”, e fá-lo legitimamente. Constitui um grande sinal de que, mesmo no meio da nossa cultura política degradada e empobrecida, a capacidade de acção histórica dos povos europeus pode renascer.

O nosso futuro é a verdadeira Europa.
35. Rejeitamos a falsa afirmação segundo a qual não existe alternativa responsável à solidariedade artificial e sem alma de um mercado unificado, de uma burocracia transnacional e de um entretenimento superficial. O “pão e circo” não suficientes. A alternativa responsável é a verdadeira Europa.

Devemos assumir as nossas responsabilidades.
36. Neste momento, pedimos que todos os europeus se unam a nós, na rejeição da utópica fantasia de um mundo multicultural sem fronteiras. Amamos, na justa medida, as nossas pátrias e procuramos transmitir aos nossos filhos todas as coisas nobres que recebemos como património nosso. Enquanto europeus, partilhamos também uma herança comum, uma herança que nos pede que vivamos em paz como uma Europa das nações. Renovemos a soberania nacional, recuperemos a dignidade de uma responsabilidade política partilhada para o bem e o futuro da Europa.

Phillipe Bénéton (France)
Remi Brague (France)
Chantal Delsol (France)
Roman Joch (Česko)
Andras Lanczi (Magyarország)
Ryszard Legutko (Polska)
Pierre Manent (France)
Janne Haaland Matlary (Norge)
Dalmacio Negro Pavón (España)
Roger Scruton (United Kingdom)
Robert Spaemann (Deutschland)
Bart Jan Spruyt (Nederland)
Matthias Storme (België)

Ilustração: Europa em 1235

Alcorão exportado pelos sauditas incentiva os extremistas islâmicos


De onde vem a incitação ao islâmica terrorismo, guerra e escravidão, inclusive a sexual? Do Alcorão, exportado pela Arábia Saudita! 

Artigo escrito por Mark Durie*, no Quadrant2 de Novembro de 2017, sob o título "Chamando pela Jihad Violenta na Austrália", e republicado no Middle East Forum.
Menos de duas semanas antes de prender onze de seus companheiros príncipes, e derrubando o helicóptero de um décimo segundo (Mansour bin Muqrin) tentando fugir do país, e detendo dezenas de outros poderosos funcionários em 4 de novembro, o Príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman subiu ao palco na cerimônia de abertura da tão esperada conferência da Iniciativa de Investimento Futuro em Riyadh e prometeu voltar a "um Islã mais moderado" no reino saudita.
Enquanto que a afirmação do príncipe herdeiro foi capaz de apenas momentaneamente afastar os holofotes de Sophia, um robô humanoide alimentado por interligência artificial, sobre o qual os participantes da conferência foram informados da concessão da cidadania saudita a ele, Bin Salman sinalizou nas semanas desde a purga que ele fala sério sobre a luta contra o extremismo islâmico.
Se Bin Salman for realmente sério nesta sua intenção, ele deve começar por rever as dezenas de bilhões de dólares que seu reino gastou nas últimas décadas propagando o que o New York Times chama de "tensão rígida, intolerante, patriarcal e fundamentalista do Islã", ou seja, o wahhabismo. Até que os gastos acabem, os sauditas permanecerão, como disse Donald Trump no início da campanha presidencial, "os maiores financiadores do terrorismo no mundo".

Os Sauditas, os Emiratos Árabes Unidos e o Egito recentemente cortaram os laços diplomáticos com o Qatar e impuseram sanções, acusando o Qatar de apoiar o terrorismo. Os sauditas exigiram que o Qatar fechasse a Al-Jazeera e cortasse todos os laços com a Irmandade Muçulmana, Al Qaeda, Hezbollah e o Estado Islâmico. O apoio de longa data e bem conhecido do Qatar para a Irmandade Muçulmana, que visa unificar as nações muçulmanas sob um califado islâmico e tem redes de apoiadores em todo o Oriente Médio, agora é considerado uma séria ameaça para os seus vizinhos.
Este é o pote chamado a chaleira negra, pois a Arábia Saudita tem um longo histórico de exportar o radicalismo islâmico. Entre as suas exportações mais notáveis estão os milhões de alcorões traduzidos, que, através de comentários (principalmente nas notas de rodapé) e material de acompanhamento, incitam os muçulmanos a fazerem jihad violenta visando o estabelecimento um estado islâmico.

Entre os alcorões exportados pelos sauditas, há uma edição em língua inglesa, The Noble Qur'an (O Nobre Alcorão,) que pode ser encontrada em mesquitas, salas de oração e lugares de encontro ao redor do mundo. Qualquer pessoa que se peça visto à embaixada da Arábia Saudita em Canberra (Austrália) receberá uma cópia gratuita.

O Nobre Alcorão pode ser encontrado na mussala, ou sala de oração, do aeroporto de Canberra. Um exemplar, no que aparentemente é a mesma edição, com o termo "MUSSALA DO AEROPORTO" escrito em caneta de marcação preta no final da página, está disponível nos últimos quatro anos, desde que o novo aeroporto foi construído.

O Nobre Alcorão também está disponível publicamente em outros espaços de "multi-fé" que surgiram em instituições em toda a Austrália nos últimos anos, em universidades, hospitais e outros locais públicos.


O co-tradutor do Nobre Alcorão, Muhammad Taqi-ud-Din al-Hilali

O Nobre Alcorão do aeroporto de Canberra foi impresso por ordem do rei Abdullah da Arábia Saudita, que governou de 2005 a 2015. Inclui o texto árabe e, ao lado, a tradução inglesa de Muhammad Taqi-ud-Din al -Hilali e Muhammad Muhsin Khan.

Há também um endosso do Xeique Abdul-Aziz ibn Baz, juiz chefe da Arábia Saudita de 1993 a 1999, e um prefácio do Xeique Salih ibn Abdul-Aziz al-Shaikh, atual ministro saudita dos Assuntos islâmicos. Após o texto corânico, há cem páginas ou mais de apêndices, e sob o texto existem notas de rodapé, que oferecem um comentário. Há também interpolações frequentes entre colchetes para ajudar a esclarecer o significado da tradução.

Marcado "não está à venda", grandes quantidades do Nobre Alcorão impressas pelos sauditas são exportadas ao redor do mundo. O Complexo do Rei Fahd para a Imprensa do Alcorão Sagrado em Medina imprimiu mais de cem milhões de Alcorões em trinta e nove línguas desde a sua criação em 1985.

O Nobre Alcorão dourado, generosamente dourado, é distribuído como parte da da'wa global dos sauditas, ou seja, esforço para propagar o Islã. Que parece se dirigir a dois tipos de leitores.

Primeiro, o Nobre Alcorão procura alistar muçulmanos na jihad violenta contra os não-muçulmanos, para estabelecer um califado islâmico. Em segundo lugar, pretende envolver-se com os cristãos. O ensaio mais longo nos apêndices é um argumento de que Jesus era um profeta do Islã e comentários em todo o Alcorão Nobre - nas notas de rodapé explicativas, as interpolações entre colchetes e os apêndices - desafiam e "corrigem" os ensinamentos cristãos.

Às vezes é dito que, quando as pessoas usam versos do Alcorão para justificar a violência, eles as tiraram de contexto. Esta crítica não pode ser aplicada ao Nobre Alcorão, que segue um método islâmico tradicional de interpretar o Alcorão à luz do exemplo e dos ensinamentos de Maomé, conhecido como Sunna. De acordo com essa tradição, as citações da Sunna fornecem a grande parte das notas de rodapé explicativas.

Sobre os não-muçulmanos

As notas de rodapé no Nobre Alcorão são repetidamente depreciativas dos não-muçulmanos.

Por exemplo, uma nota para a Surata 10:19 (p. 272, fn1) cita Maomé para dizer que os seres humanos nascem muçulmanos e são "convertidos" para fora do islamismo por pais não muçulmanos. Segundo a nota, pais judeus ou cristãos que criam seus filhos em sua própria fé é semelhante a mutilá-los:
Todo filho nasce em al-Fitrah, mas seus pais o convertem para o judaísmo ou para o cristianismo ... Um animal dá à luz um animalzinho perfeito. Você vai encontrar o animalzinho mutilado?
A palavra al-fitrah refere-se à doutrina de que o estado inato dos seres humanos é ser muçulmano.

O texto em árabe do Alcorão diz que os não-muçulmanos são impuros (Surata 9:28), usando uma palavra depreciativa (najas). A nota de rodapé para este verso explica sobre os não-muçulmanos que:
Sua impureza é espiritual e física: espiritual porque eles não acreditam na Unidade de Alá e em seu Profeta Maomé ... e física, porque eles não têm higiene pessoal (são imundos em relação à urina, fezes e sangue [menstrual]). [p. 248, fn 2]
A Surata 3:85 afirma que "quem procura uma religião diferente do Islã, nunca será aceito, e no futuro será um dos perdedores." No comentário da nota de rodapé sobre este versículo, o Nobre Alcorão cita Maomé para explicar que os cristãos e judeus que morrerem descrentes em Maomé acabarão no Inferno:
não há nenhum dos judeus e cristãos ... que ouve sobre mim e depois morre sem acreditar na Mensagem com a qual fui enviado ... mas ele será um dos moradores do fogo (do inferno). [p. 84, fn 1]
Surata 4:47 adverte cristãos e judeus que eles devem acreditar em Maomé, ou então seus rostos serão levados para o inferno, aos quais os tradutores acrescentam, entre colchetes, "fazendo-os parecer como a parte de trás dos pescoços, sem nariz, boca, olhos." O comentário da nota explicativa explica ainda mais:

Este versículo é um aviso severo aos judeus e aos cristãos, e uma obrigação absoluta de que eles devem acreditar no Mensageiro de Allah, Maomé ... e também em sua Mensagem do Monoteísmo Islâmico e neste Alcorão. [p. 115, fn 2]

O Alcorão tem versos que exortam a tolerância de cristãos e judeus. No entanto, o Nobre Alcorão se esforça para enfatizar que tais versos foram cancelados por versos posteriores, seguindo o princípio contextual islâmico de abrogação (naskh). Aqui estão dois exemplos:
Primeiro, a Surata 2:62 afirma que um cristão ou judeu que "crê em Alá e no último dia e faça boas ações justas terá sua recompensa com o seu Senhor, sobre eles não haverá medo, nem se afligirão".
Isso poderia ser levado a implicar que os cristãos e judeus serão aceitos por Alá se eles seguirem sua fé corretamente. No entanto, o comentário sobre este verso esclarece que:

Este versículo (e versículo 5:69) ... não deve ser mal interpretado pelo leitor ... a provisão deste versículo foi abrogada pelo versículo 3:85 "e quem quer buscar uma religião diferente do islamismo, nunca será aceito por Ele, e no futuro, ele será um dos perdedores "(isto é, após a vinda do Profeta Maomé ... na terra, nenhuma outra religião, exceto o Islã, será aceita por qualquer um). [p. 13, fn 2]

O que esta nota de rodapé realmente está afirmando é que os cristãos e os judeus irão para o Inferno, a menos que eles aceitem o Islã, porque versículos anteriores que pareciam conter tolerância foram substituídos e cancelados por versículos posteriores.

Em segundo lugar, a Surata 2:109 afirma que os muçulmanos devem "perdoar e ignorar" os cristãos e os judeus, "até que Alá traga Seu Comando." No entanto, a nota de rodapé deixa claro que "a provisão deste versículo foi abrogada" (p. 21, fn 1) pela Surata 9:29. O versículo posterior ordena aos muçulmanos que combatam (isto é, matem) os cristãos e os judeus, a menos que, ou até que, eles se rendam aos muçulmanos e paguem tributo:

Lute contra aqueles que não crêem em Alá, nem no Último Dia, nem proíbem o que foi proibido por Alá e Seu Mensageiro (Maomé ...) e aqueles que não reconhecem a religião da verdade (isto é, o Islã) entre os povos das Escrituras (judeus e cristãos), até que paguem a Jizyah [é um imposto per capita cobrado a uma parte dos cidadãos não muçulmanos de um estado islâmico ] com uma submissão voluntária e se sintam subjugados. [Surata 9:29, p. 248]

Aqui, novamente, um versículo mais tolerante é reivindicado como tendo sido abrogado por um versículo posterior que comanda violência contra não-muçulmanos.

O significado da Jihad

Alguns muçulmanos têm proposto que o significado básico da jihad seja uma luta pacífica. Em contraste, o Nobre Alcorão define a jihad como travar guerra contra não-muçulmanos para tornar o islamismo dominante no mundo. Essa jihad é obrigatória para todos os muçulmanos, e rejeitar essa obrigação levará ao inferno.

Esta interpretação é clara no glossário, onde a entrada para a jihad é:


Sagrada luta na Causa de Alá ou qualquer outro tipo de esforço para tornar a Palavra de Alá (ou seja, o Islã) superior. A Jihad é considerada como um dos fundamentos do Islã. Veja a nota de rodapé de (V.2: 190) [p. 873]
A nota de rodapé referida é um comentário sobre a Surata 2: 190, "E lute no Caminho de Alá, aqueles que lutam contra você ..." Esta nota de rodapé lê:
Al-Jihad (luta sagrada) na Causa de Allah (com força total de números e armamento) é dada a maior importância no Islã e é um dos seus pilares (sobre o qual se sustenta). Através da Jihad, o Islã é estabelecido, a Palavra de Alá é feita superior, (Sua Palavra sendo La ilaha illallah, o que significa que ninguém tem o direito de ser adorado, mas Alá), e Sua Religião (Islã) é propagada. Ao abandonar a Jihad (que Alá nos proteja daquilo), o islamismo é destruído e os muçulmanos caem em uma posição inferior; Sua honra é perdida, suas terras são roubadas, sua regra e autoridade desaparecem. A Jihad é um dever obrigatório no Islã sobre todos os muçulmanos, e aquele que tenta escapar deste dever, ou no mais intimo de seu coração não deseja cumprir esse dever, morre com uma das qualidades de um hipócrita. [p. 39, fn 1]
Aqui o Nobre Alcorão está dizendo que o propósito da jihad é tornar os muçulmanos dominantes sobre os não-muçulmanos e o Islã dominando outras religiões. A guerra islâmica contra os não-muçulmanos é uma espécie de empreendimento missionário para difundir a fé, e qualquer muçulmano que não cumpre esse dever obrigatório é um "hipócrita".

O que é ruim em ser um "hipócrita" é esclarecido pelo Nobre Alcorão na página 906 dos apêndices: um hipócrita acabará nas mais baixas profundidades do inferno, o lugar da pior punição. O Nobre Alcorão está ensinando aqui que qualquer muçulmano que não se envolve e apoia a guerra para estabelecer o domínio do Islã está destinado a ocupar o lugar mais quente do inferno, pior do que o ocupado por não-muçulmanos.

Em sua nota de rodapé sobre a Surata 27:59, o Nobre Alcorão cita uma tradição de Maomé que se refere à jihad (pág. 512 fn 1). (Aqui, a jihad é definida como "luta santa".) A nota de rodapé enfatiza que lutar contra os não-muçulmanos é a melhor ação piedosa para um muçulmano, em segundo lugar apenas para se tornar muçulmano.

O califato e a guerra universal contra os não-muçulmanos

A surata 2: 252 (p. 55, fn2, correndo para a página 56) refere-se a Maomé como um mensageiro de Alá. A nota de rodapé deste versículo informa que a profecia de Maomé se distinguiu por certas características. Três destas são:
(i) Maomé foi vitorioso através do medo ou do terror dentro de uma região definida pela distância correspondente a um mês de viagem: "Alá me fez vitorioso pelo terror (por meio de assustar meus inimigos) por uma distância de um mês de viagem."
(ii) Ele foi o primeiro profeta de Alá a ter permissão para tirar o saque de seus inimigos: "A pilhagem foi feita Halal (legal) para mim ainda que não fosse legal para ninguém antes de mim."
(iii) Ao contrário dos profetas anteriores, ele foi enviado a toda a humanidade, não apenas a um grupo específico: "Todo Profeta costumava ser enviado apenas para sua nação, mas eu fui enviado a toda a humanidade."
A implicação deste terceiro ponto é que todos, em todos os lugares, são obrigados a aceitar Maomé como seu profeta, e os dois primeiros pontos mostram que ele foi comissionado exclusivamente para fazer guerra contra os incrédulos, aterrorizando-os e saqueando-os. Maomé é considerado o melhor exemplo para os muçulmanos seguirem, incluindo-se aí, fica claro, esses aspectos de sua carreira profética. O Nobre Alcorão enfatiza esses aspectos da missão de Maomé para ativá-los para a jihad.

Em sua nota de rodapé sobre a Surata 3:55 (p. 76, fn 1), o Nobre Alcorão afirma que, quando Jesus retornar, ele imporá a lei islâmica e quebrará a cruz (isto é, destruirá o cristianismo). Naquele tempo, Jesus vai acabar com a tolerância dos não-muçulmanos, de modo que "todas as pessoas serão obrigadas a abraçar o Islã e não haverá outra alternativa." Em outras palavras, eles serão obrigados a se converterem, pela força, se necessário.

Este ensinamento sobre o retorno de Jesus é repetido em um comentário sobre Surata 8:39 (p. 236, fn 1) e um comentário sobre Surata 61: 6 (p. 761, fn 2), que afirma que essa tradição se destina como "um severo aviso para os cristãos que afirmam serem os seguidores de 'Isa (Jesus) ... "Em essência, o Alcorão Nobre diz aos leitores cristãos que, quando ele retornar, Jesus os obrigará a abraçar o Islã e todas as pessoas na Terra terão que escolher entre o Islã e a morte.

O Complexo do Rei Fahd para a Impresão do Alcorão Sagrado em Medina produziu mais de 250 milhões de cópias do Alcorão

Em seu comentário sobre Surata 9:29 (p. 248, fn 2), o Nobre Alcorão cita uma tradição de Maomé sobre os judeus, que afirma: "A Hora (ou seja, a hora final) não será estabelecida até você lutar contra os judeus e a pedra, por trás da qual um judeu se esconderá, dirá: "Ó muçulmano! Há um judeu escondido atrás de mim, então mate ele." Então, no final, a própria criação clamará por sangue judeu.

Em uma interpolação na Surata 8:73, o Nobre Alcorão afirma que os muçulmanos do mundo não devem se aliar com os não-muçulmanos, mas se juntar "para tornar vitoriosa a fé da religião de Alá do monoteísmo islâmico" (p.224). É explicado em comentários que, se os muçulmanos não fizerem isso, haverá distúrbios terríveis e tribulações no mundo, com guerras, batalhas e colapso calamitoso da sociedade civil. Isto é devido aos efeitos deletérios das regras dos não-muçulmanos. Além disso, também é errado ter "muitos governantes muçulmanos", porque os muçulmanos devem se unir sob um único governante, o califa: "é uma obrigação legal ... que não haverá mais que um Khalifah para todo o mundo muçulmano ... "Além disso, qualquer um que trabalhe para dividir os muçulmanos em diferentes grupos sob diferentes governantes deve ser morto, de acordo com Maomé, que teria dito: "Quando todos vocês [muçulmanos] estão unidos ... e um homem vem para desintegrar  voces e separa-los em diferentes grupos, então mate aquele homem" (p. 242, fn 1). Isso pode significar que alguém que defende a divisão dos muçulmanos em estados-nações distintos, que é a ordem internacional de hoje, está sob pena de morte.

O Nobre Alcorão pinta uma visão supremacista de uma suprema vitória islâmica sobre todas as demais religiões, não-muçulmanas, na qual todos os não-muçulmanos serão convertidos ao Islã ou morrerão. O texto da Surata 3: 110 lê:
Vocês (verdadeiros crentes do monoteísmo islâmico ...) são as melhores pessoas criadas para a humanidade; vocês impõem al-Mahruf (monoteísmo islâmico e tudo o que o islã ordenou) e proíbem Al-Munkar (politeísmo, descrença e tudo o que o Islãismo proibiu) e vocês acreditam em Alá. [Surata 3: 110]
O comentário da nota de rodapé sobre este versículo explica:

"Você ... é o melhor das pessoas criadas para a humanidade", o melhor das pessoas para o povo, como você os traz com correntes em seus pescoços até que eles abraçem o Islã (e, assim, salvá-os do castigo eterno do fogo do inferno e fazê-os entrar no paraíso no futuro) ... As pessoas aqui referidas podem ser os prisioneiros de guerra que foram capturados e presos pelos muçulmanos, e sua prisão for a causa da sua conversão ao islamismo. Então, é como seu aprisionamento fossem o meio de ganhar o Paraíso. [p. 89, fn 1]

O Estado Islâmico (ISIS) usa a mesma interpretaçãopara justificar a escravidão

Esta nota de rodapé é uma referência a uma tradição de Maomé, que afirma que Alá se agrada em ver as pessoas entrarem no Paraíso acorrentadas. Isso justifica a guerra contra os não-muçulmanos, e forçá-los ao Islã através da escravização deles; escravizar os não-muçulmanos é uma bondade para eles, porque lhes permite atingir o Paraíso.

Esta interpretação da Surata 3: 110 é baseada no ensinamento de Maomé. Poderia ter algum aplicativo no mundo de hoje, ou é apenas uma letra morta?

A mesma tradição foi citada pelo Estado islâmico na edição de outubro de 2014 de sua revista Dabiq, que incluiu um artigo intitulado "O retorno da escravidão antes da hora":

[Maomé] disse: "Alá se maravilha com um povo que entra em Jannah [Paraíso] acorrentado". Os comentadores dos hadices mencionaram que isso se refere a pessoas que entram no Islã como escravas e depois entram em Jannah [Paraíso]. Abu Hurayrah ... disse ao comentar as palavras de Alá: "Você é a melhor nação produzida para a humanidade" ... "Você é a melhor pessoa para as pessoas. Você os traz com correntes ao pescoço, até que eles entram no Islã".
O mesmo sentimento também foi expresso por um soldado holandês do Estado islâmico, Israfil Yilmaz, que blogou sobre a motivação islâmica correta para a escravidão sexual:


As pessoas [que] pensam que ter uma concubina para o prazer sexual só têm uma mentalidade muito simples sobre este assunto ... A maior e melhor coisa de ter concubinas é apresentá-los ao islamismo em um ambiente islâmico, mostrando-os e ensinando-lhes a religião. Muitas das concubinas / escravas dos Companheiros do Profeta ... tornaram-se muçulmanas e até mesmo grandes comandantes e líderes na história islâmica e isso é se você me perguntar a verdadeira essência de ter escravas / concubinas.
Os tradutores que criaram o comentário no Nobre Alcorão e os líderes sauditas que endossaram o texto, sem dúvida, desejariam que os leitores tomassem em consideração os ensinamentos que tinham trabalhado para apresentar. A evidência é que muitos já o fizeram. O investimento dos sauditas de bilhões de dólares para espalhar os tipos de idéias encontradas no Nobre Alcorão não foi em vão, e o Estado islâmico fornece a prova.

A evidência de seu sucesso é encontrada na justificativa de Israfil Yilmaz para a escravidão sexual. Isso não só alinha-se com a propaganda oficial do ISIS: também está totalmente alinhado com os ensinamentos do Nobre Alcorão. Outro sinal da influência das idéias do Nobre Alcorão foi a enchurrada de milhares de recrutas do ISIS que fluem de nações ocidentais para se juntarem à jihad na Síria e no Iraque.

O que tudo isso significa?

Ahmed Farouk Musa, graduado da Faculdade de Medicina da Universidade Monash em Melbourne, disse a um fórum sobre extremismo muçulmano em Kuala Lumpur, em 7 de dezembro de 2014, que o Nobre Alcorão incita a violência contra os cristãos e outros não-muçulmanos: "Eu acredito que a propaganda como a tradução de Hilali-Khan e outros materiais que saem da Arábia Saudita são uma das principais causas que alimentam idéias extremistas entre os muçulmanos, violência contra cristãos e outras minorias ".

Não há uma Bíblia impressa, em qualquer lugar do mundo, judaica ou cristã, que contenha tal comentário incendiário como se encontra página após a página do Nobre Alcorão. Este é um livro sobre como iniciar uma guerra. A ideologia que promove está preparada para acender o fusível da jihad violenta.

Dado seu conteúdo, pode parecer surpreendente que uma cópia do Nobre Alcorão tenha estado sentado na sala de oração do aeroporto de Canberra nos últimos quatro anos. As características teológicas desta edição do Alcorão não são um segredo. No entanto, parece que nenhum muçulmano que usou a mussala se opôs, ou se o fizeram, as autoridades do aeroporto de Canberra não prestaram atenção. Os políticos de Canberra e seus muitos conselheiros também passam regularmente pelo corredor onde a mussala está localizada, mas nenhum deles parece ter pensado em verificar qual versão do Alcorão estava sendo usada na sala de oração do aeroporto.

No início deste ano, a Associação de Saúde Pública da Austrália pediu ao Comitê Permanente de Relações Exteriores, Defesa e Comércio que rejeite a "noção" de que exista um vínculo inerente entre o Islã e o terrorismo. Parece que as autoridades da Associação de Saúde Pública de Austrália também não visitaram a mussala do aeroporto de Canberra para ler seu Alcorão.


A sala de oração do aeroporto de Canberra

A mensagem do Nobre Alcorão não é um fenômeno marginal. Não é uma opinião das extremidades do mundo islâmico, mas do seu coração, apresentado como um presente, encadernado em ouro, do rei saudita, o Guardião das Duas Mesquitas Sagradas. A teologia política do Nobre Alcorão alinha-se ao dogma oficial da Arábia Saudita, e foi aprovada pelo rei saudita e pela justiça principal do país, o Grande Mufti.

É necessário entender a autenticidade do Nobre Alcorão e sua mensagem para o mundo. Aqueles que estão por trás do Nobre Alcorão acreditam manifestamente que a justiça será servida somente quando os muçulmanos dominarem o mundo e que a guerra necessária para atingir esse objetivo não é apenas justificada: é uma obrigação divisivelmente instituída, inescapável, incumbente de todos os muçulmanos, porque Maomé e o Alcorão é, como diz a Surata 21: 107, "uma misericórdia para os mundos".

Alguém, às vezes, pode ter a visão de que não cabe aos não-muçulmanos expressar opiniões sobre o Islã ou seus textos canônicos, como o Alcorão. Mas os comentários do Nobre Alcorão contidos no texto, que tem tanto a dizer sobre não-muçulmanos, especialmente judeus e cristãos, dá aos não-muçulmanos, especialmente judeus e cristãos, todo o direito de formar suas próprias opiniões sobre isso. Se um livro fala sobre você, você tem o direito de se decidir sobre o que tem a dizer.

Em 2002, Christopher Hitchens recebeu uma pergunta de Tony Jones no programa Lateline da rede ABC sobre o motivo pelo qual os homens jovens, na sua maioria bem educados, cometeram a atrocidade do 11 de setembro. A resposta de Hitchens foi: "Bem, pode ser que eles acreditam em sua própria propaganda". Temos que assumir que os responsáveis ​​pelo Nobre Alcorão acreditam em sua própria propaganda também, e que alguns que a leram foram influenciados a acreditar também.

O que os australianos devem fazer do fato de que os sauditas apresentaram uma desculpa aberta e sem vergonha para a jihad violenta, mesmo que recomendam a prática de escravizar inimigos, em nosso próprio quintal há anos, para não mostrar o Islã com uma luz pobre, mas para glorificá-lo?

O fato do Nobre Alcorão estar na mussala do aeroporto de Canberra não é um acidente. Esta edição do Alcorão, e os ensinamentos que promove, podem ser encontrados em livrarias islâmicas, bibliotecas públicas, salas de oração e mesquitas sunitas em todo o mundo de língua inglesa.

O historiador britânico Tom Holland produziu recentemente um documentário sobre ISIS chamado The Origins of Violence. Uma crítica mordaz do jornalista inglês Peter Oborne foi publicada no
Middle East Eye. Oborne criticou severamente Holland por sugerir que o problema com ISIS está com o Islã. Oborne achou repugnante sugerir que existe algo sobre o Islã que pode ser considerado uma "ameaça", e ele criticou a sugestão de Holland de que poderia haver qualquer coisa no exemplo e no ensinamento de Maomé (a quem Oborne respeitosamente chama de "O Profeta") que poderia ter guiado as ações do Estado islâmico.

Essa ignorância é fruto do analfabetismo religioso. Ou pode ser o problema? Maomé, louvado nas páginas do Alcorão por ser "vitorioso pelo terror", agora prolonga o seu reino de medo, não apenas pela distância de um mês de viagem, conforme Maomé declarou ter alcançado na Arábia do sétimo século, mas em catorze séculos, para a Austrália e o resto do mundo?

A propaganda, como a tradução de Hilali-Khan e outros materiais provenientes da Arábia Saudita, são uma das principais causas que alimentam idéias extremistas entre os muçulmanos, a violência contra os cristãos e outras minorias", de acordo com Ahmed Farouk Musa

É claro que muitos muçulmanos australianos, como Ahmed Farouk Musa, encontrarão as mensagens promovidas através das notas de rodapé e gloses do Nobre Alcorão absolutamente repugnantes. É decepcionante que esses muçulmanos bem-intencionados não tenham podido determinar qual versão de suas próprias escrituras deve ser colocada em uma sala de oração pública designada para seu uso. Eles poderiam ter pressionado o aeroporto de Canberra para que esta versão do Alcorão fosse substituída por outra, mas se eles fizeram isso, suas tentativas devem ter falhado.

A mensagem contida no Nobre Alcorão e sua ampla distribuição pública são assuntos que os australianos têm todo o direito de se preocupar. Sua mensagem foi promovida em público há anos com quase um sussurro de objeção vindo daqueles que deveriam saber melhor.

Seria inadequado e, de fato, irrelevante, se os nossos líderes respondessem à mensagem do Nobre Alcorão com declarações como "O verdadeiro Islã não promove o terrorismo" ou "Nenhuma religião verdadeira apoia a violência." Pois para as autoridades australianas se atreverem a instruir o Grande Mufti da Arábia Saudita ou o Guardião das Duas Mesquitas Sagradas sobre o que é o verdadeiro Islã seria ridículo e ofensivo. Mas os líderes da nossa nação, contra cujos cidadãos não-muçulmanos o Nobre Alcorão incita essa inimizade não disfarçada, têm todo o direito de dizer: "Não no nosso quintal!"

Mark Durie é pastor de uma igreja anglicana, companheiro de Shillman-Ginsburg no Middle East Forum e fundador do Instituto de Consciência Espiritual.




terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Guerra sem fim: uma breve história das conquistas muçulmanas


David Curp
Professor Assistente de História na Ohio University, onde leciona História contemporânea da Europa Oriental e dos Bálcãs. Atualmente está terminando um livro sobre faxina étnica na Polônia pós-guerra.

Artigo publicado em Crisis Magazine, 1 de novembro de 2005 e republicado em 10 denovembro de 2009.


            Tendemos a superestimar a atual superioridade militar, econômica e tecnológica do Ocidente relativamente ao mundo islâmico e projetá-la a séculos passados. Com o luxo de ter o conhecimento da História depois que ela já aconteceu, muitos historiadores ocidentais olham para o passado em direção à expansão do Islã no contexto de um Império Bizantino decadente, colocando as Cruzadas medievais como uma prequela ao moderno imperialismo ocidental e como paroxismos de fanatismo religioso cristão.

            Os ideais cruzadistas no Ocidente foram uma resposta à enorme ameaça da jihad (N.T.: luta ou esforço para implantação do Islã). Elas foram deflagradas por medo e por necessidade, num conflito desesperado contra o Islã, conflito este que os cristãos vinham perdendo ao longo de vários séculos - e eles estavam cientes de que estavam perdendo. A extensão das vitórias do Islã pode ser vista no desaparecimento quase total das comunidades cristãs outrora prósperas na África setentrional, Oriente Médio e Ásia Ocidental, bem como nos Bálcãs, onde o Islã ainda tem raízes profundas. Os Balcãs constituem-se em região cujo próprio nome foi imposto pelo imperialismo turco bem sucedido, do final da Idade Méda.

          O Islã é uma religião notavelmente bem sucedida, a qual inspirou seus seguidores a gerar criativamente as precondições frequentemente conflituosas da guerra, política imperialista e zelo missionário, durante a maior parte de sua existência. Projetar a atual liberdade de ação dos países ocidentais ao passado (N.T.: por parte do Ocidente) distorce seriamente a história e o drama da fraqueza ocidental contínua, que levou a quase destruição da Cristandade. O apelo emocional dos protestos do Islã radical contemporâneo contra o Ocidente não é nutrido primariamente por um vitimismo enlutado, mas sim por uma lembrança muito forte de como a vitória final do Islã sobre a Cristandade tem permanecido como uma possibilidade real por um tempo tão longo. Os triunfos muçulmanos nos primeiros séculos do islamismo formaram os alicerces que embasam os temores da Cristandade bem como da confiança do Islã em si mesmo.

A ASCENÇÃO DO DAR AL-ISLAM

            Diferentemente do Cristianismo, que começou à margem da vida política e social do mundo romano e lá permaneceu por séculos, o Islã rapidamente atingiu sucesso mundial. No espaço de um século da morte do profeta Maomé, seus seguidores já haviam conquistado a maior parte da metade meridional do mundo mediterrâneo. Os exércitos muçulmanos avançaram a partir da Península Arábica até a França meridional, a oeste; ao norte dos distritos fronteiriços de Constantinopla, a maior cidade da Cristandade. E mais além ao Oriente, às antigas civilizações da Pérsia, Índia e fronteiras mais orientais da China.

            Nos primeiros séculos do Islã, os estudiosos e juristas muçulmanos compreenderam que o mundo se dividia do ponto de vista religioso e político entre Dar al-Islam, ou Casa da Paz, e Dar al-Harb, a Casa da Guerra (N.T.: as traduções dos termos Islã e Harb não devem ser tomadas literalmente; o termo Islã pode ser interpretado como 'paz através da submissão', enquanto que o termo Harb pode ser interpretado como 'lugar onde deve prevalecer a guerra até o estabelecimento do Islã'). Enquanto que tréguas entre sociedades islâmicas e não-islâmicas eram aceitáveis, o Alcorão ensinava que estas deveriam ser limitadas em duração. Ao final, nenhuma paz permanente entre muçulmanos e não-muçulmanos era possível até que todos os não-muçulmanos se submetessem ao domínio muçulmano e o Dar al-Islam abrangesse todo o mundo. Jihad, seja na forma da 'jihad maior' (a luta que todos os muçulmanos devem travar contra o pecado) ou a 'jihad menor' (a luta armada contra não-muçulmanos), deveria ser integral para trazer a plenitude e a unidade a um mundo dividido.

            As conquistas iniciais do Islã foram aterrorizantes pelo seu poder e velocidade. Elas golpearam o mundo mediterrâneo em uma época na qual guerra e rixas domésticas tornavam impossível compor uma frente comum contra a expansão árabe muçulmana. Ferrenhas disputas doutrinárias entre cristãos e uma guerra demasiadamente exaustiva contra os persas, deixaram a única real potência cristã - Bizâncio - despreparada para enfrentar uma jihad assustadoramente efetiva. Os vários pequenos principados cristãos e pagãos na África setentrional e na Espanha - tal como o dos enfraquecidos persas zoroastristas - estavam menos aptos ainda para enfrentar os exércitos muçulmanos.

            A fraqueza cristã e persa, bem como o sucesso do Islã em conquistar militarmente grandes extensões territoriais e colocá-las sob seu controle, produziram uma gama de reações entre cristãos e muçulmanos. No Ocidente, particularmente na Espanha, a presença da religião muçulmana deixou surpreendentemente poucos traços nos esparsos documentos cristãos referentes ao primeiro século após a conquista. Parece que a maioria dos cristãos aceitou seus novos senhores muçulmanos com equanimidade. De fato, muitos descobriram que o colaboracionismo com os governantes ligados ao 'mercado comum' Dar al-Islam, estendendo-se da Espanha até a cordilheira do Hindu Kush na Índia (atual fronteira entre Afeganistão e Paquistão) era mais lucrativo do que resistir à nova classe governante, cujas demandas inicialmente não eram onerosas e cujo poder militar era invencível.

            Os documentos espanhóis mais antigos que tratam da presença muçulmana como um problema religioso correspondem aos trabalhos de São Eulógio, escritos mais de um século após a conquista, isto é, em 850. O seu Liber Apologeticus Martyrum, escrito para outros cristãos da Espanha, defendia a santidade dos mártires cristãos ('os 40 mártires de Córdoba'), os quais haviam sido recentemente executados por denuciar publicamente o Islã e o seu profeta. Eulógio, que em breve seria ele mesmo morto pelas autoridades muçulmanas por defender os mártires, respondia a objeções cristãs de que aqueles que os muçulmanos tinham executado não eram mártires porque haviam "sofrido nas mãos de homens que veneravam a Deus e à lei". Isto ilustra o quão profundamente os cristãos espanhóis estavam submetidos ao domínio islâmico. Eles definiam tanto os muçulmanos quanto suas relações com o Islã, inteiramente em termos islâmicos.

            A resistência franca (N.T.: nação de origem germânica, precursora da atual França) derrotou uma grande invasão árabe em Tours em 732 DC. Porém foi tanto sua pobreza quanto suas armas, bem como as crescentes divisões dentro do próprio Dar al Islam, que defenderam os cristãos ao norte dos Pirineus (cadeia de montanhas entre a França e a Espanha) da incorporação ao mundo muçulmano.

            Para a maior parte dos cristãos no Oriente, entretanto, a expansão e estabilização iniciais do Islã foram um desastre não-mitigado - agravado pela agressão muçulmana contínua ao longo do século VIII. Começando no século VII, os bizantinos asseguraram sua fronteira terrestre oriental, consideravelmente reduzida, através de uma série de drásticas reformas militarizantes, que tornaram uma grande parte do império em um estado-guarnição. Apesar do fato de que seus vizinhos muçulmanos carecessem de unidade para promover ataques de porte, a pressão constante de invasores muçulmanos buscando escravos e butim - bem como a ameaça igualmente permanente da pirataria árabe pelo Mediterrâneo - impeliram Bizâncio a permanecer em permanente estado de guerra.

            Bizâncio perdurou através destes séculos de conflito e promoveu um marcável florescimento de sua cultura, tanto domesticamente quanto no exterior. Os missionários, artistas, professores e soldados de Bizâncio expandiram a influência cultural, religiosa e política de seu império nos Bálcãs e na Ucrânia meridional. Fato ainda mais notável, considerando que este reavivamento aconteceu à sombra das três espadas cada vez mais pesadas de Damocles (N.T. figura de linguagem que expressa um perigo constante). As duas primeiras correspondiam à criação propriamente dita de Bizâncio, forjada pelo peso de uma guerra de sobrevivência: sua própria política interna despótica e fraturada, bem como suas relações torturadas e por vezes hostis com outros cristãos - tanto igrejas cristãs mais antigas ao Oriente e Ocidente como povos recentemente cristianizados, evangelizados pelos seus missionários ao norte. Seu credo na missão de seu império não só levou os bizantinos a considerar o seu estado como o centro político da Cristandade, porém também produziu uma arrogância imperial que minou a habilidade do império em cooperar efetivamente com outros cristãos. Estes dois fatores tiveram seu perigo aumentado pela terceira e mais imprevisível das ameaças: o comprometimento permanente dos muçulmanos com a jihad.

A CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE

            No Dar al-Islam os bizantinos enfrentavam um inimigo que constante, mesmo que às vezes de modo esporádico, renovava seu compromisso com a jihad. O mundo muçulmano se fortalecia com os povos da Ásia, bem como com o seu amplo acesso à mão-de-obra escrava na Ásia e África, mais rápidamente do que Bizâncio era capaz através de suas relações com seus correligionários. A expansão original e vasto alcance do Dar al-Islam provia o Islã com o poder necessário para se recuperar do período de fraqueza e divisão que sobreveio após sua fundação. Bizâncio, por outro lado, não possuía alianças tão consolidadas.

            O século X é frequentemente considerado um ponto baixo na expansão islâmica e no entusiasmo jihadista, bem como uma época de reavivamento bizantino ao mesmo tempo em que o império se recuperava de um século de ataques constantes e se engajava em uma modesta reconquista de alguns de seus territórios. Ainda assim, mesmo este 'ponto baixo na expansão islâmica' viu o desenvolvimento de um corpo inteiro de teologia e literatura litúrgica jihadista compatíveis com iniciativas de mesma natureza. Ghazis, ou guerreiros muçulmanos sagrados, promoveram numerosos ataques em território bizantino naquele século. Também internacionalizaram de forma bem sucedida sua luta anti-bizantina, cooptando outras pessoas no seu esforço 'defensivo' em promover conquistas muçulmanas preemptivas e em manter Bizâncio limitado a fronteiras facilmente atacáveis.

            O século começou com um espetacular sucesso muçulmano: o saque árabe da segunda maior cidade de Bizâncio, Tessalônica, em 29 de julho de 903, quando foram escravizados 30.000 cristãos. Em 931, grupos de assalto muçulmanos alcançaram Ankuriya (a moderna Ankara), avançando profundamente em território bizantino, tomando cativos outros milhares de cristãos. Ribats, estabelecimentos muçulmanos que eram em parte mosteiro e em parte fortaleza, floresciam ao longo de toda a fronteira da Síria setentrional e Anatólia meridional. Estes lugares serviam como bases de onde ghazis, que vinham de diversos lugares, até tão distantes quanto a Ásia central, viajavam para juntarem-se aos grupos de assalto contra os cristãos, considerados pelos muçulmanos como 'politeístas'.

            Escritores muçulmanos utilizavam os contra-ataques bizantinos para inflamar a opinião muçulmana e procuravam trazer um reavivamento religioso e maior comprometimento muçulmano com a jihad. O maior pregador muçulmano, Ibn Nubata al-Fariqi, desenvolveu um ciclo inteiro de sermões que se tornaram o modelo para este tipo de literatura por séculos e que mais tarde inspiraria Saladino. Em sermões que antecipavam a terna garantia de proteção divina com a qual o Papa Urbano impregnaria os cruzados um século mais tarde, Ibn Nubata constantemente exortava os ghazis a assumirem a causa da jihad. Veja esta passagem, por exemplo, citada no livro 'Os Cruzados: Perpectivas Islâmicas' de Carole Hillenbrand (Routledge, 2000):

Você acha que Ele o desprezará enquanto você O ajuda, ou você imagina que ele o deserdará enquanto você está firme no caminho Dele? Certamente não!... Então vista - que Deus tenha misericórdia de você - pela jihad, a cota de malha do crente e equipe-se com a armadura daqueles que confiam [em Deus].

            Se, como alguns estudiosos (como Hillenbrand) argumentaram, este foi o ponto baixo dos ideais jihadistas entre os muçulmanos, mesmo tal declínio foi suficiente para estirar as defesas de  Bizâncio a forçá-la a manter uma guerra permanente. Também lançou sementes que floresceram nos séculos 11 e 12 no Dar al-Islam. A jihad provou ser uma enorme árvore no jardim do Islã.

O FIM DO COMEÇO

            No Dia da Ortodoxia (N.T.: um dia festivo no calendário da Igreja Ortodoxa) - 13 de março de 1071 - o imperador bizantino Romano IV liderou um dos maiores exércitos que Bizâncio havia reunido em séculos para fora de Constantinopla. O objetivo de Romano era terminar os ataques turcos contínuos que lentamente fustigavam as defesas no coração do Império Bizantino e de um dos centros mais antigos e ricos da vida cristã: a Anatólia. Apesar de conhecermos esta região atualmente como Turquia, no século 11, a Anatólia era um território proeminentemente cristão. O triste destino da campanha de Romano era o da recriação e renomeação de Anatólia.

            Desde o início da Antiguidade, a posição da Anatólia, de encruzilhada ente a Europa e a Ásia, a tornou uma das partes mais ricas e mais intensamente urbanizadas do mundo mediterrâneo. Era uma região diversificada, contendo grandes comunidades gregas bem como frígias, capadocianas, celtas na região de Galácia, armênios e judeus, entre outros. Neste cadinho urbanizado de povos - que incluía Tarso, a cidade natal de São Paulo - o Cristianismo se disseminou rapidamente.

            Os nomes de um número de cidades na região, se não suas histórias subsequentes, são especialmente famiiares àqueles conhecedores do livro de Revelações: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sárdis, Filadélfia e Laodicéia. Parece que o chamado de arrependimento registrado pelas revelações de São João se provaram bem sucedidas no início da metade do século 2, porque estas bem como outras igrejas, experimentaram um Cristianismo urbano intenso e vibrante, bem como promoveram iniciativas missionárias frutíferas. Na Anatólia, a transição do Paganismo para o Cristianismo foi mais branda do que em outros lugares do mundo romano. A riqueza, bem como as profundas raízes cristãs da região, indicavam Constantinopla como o lugar de refundação do Império Romano do Leste. À altura dos séculos 10 e 11, Anatólia era o lar de oito a dez milhões de pessoas, incluindo dezenas de milhares de refugiados do Dar al-Islam - a maior parte deles cristãos, porém alguns muçulmanos.

            Ironicamente, o povo que conquistou esta região em nome do Islã, os turcos seljúcidas, converteram-se pacificamente a esta religião apesar de não terem experimentado os milênios da cultura elevada que os separava dos povos de Anatólia. A conversão ao Islã dos povos turcos nômades e beligerantes da Ásia Central começou nos séculos 8 e 9. Eles começaram a migrar ao Oriente Médio nos séculos 10 e 11. Foram estes povos que esmagaram o poder militar bizantino em 1071 e que portanto deflagraram as Cruzadas. Eventualmente liderados pela casa de Osman - isto é, otomanos - os povos turcos completaram a conquista de Constantinopla e criaram um império e um califado sobre as ruínas de Bizâncio que durou até 1924. Os seljúcidas e os otomanos portaram os estandartes do Islã mais profundamente dentro da Cristandade do que qualquer outro já houvera alcançado anteriormente.

            Os turcos, tal como os primeiros muçulmanos árabes, combinavam a devoção de convertidos entusiastas com sua determinação de lançar guerra pelo Profeta e por lucro. Convertidos por missionários sunitas, estes imigrantes turcos foram arrebatados pelo poder (e tentados pela riqueza) da heterodoxa e eclética Shia (xiítas) que dominava muito da vida política do Oriente Médio à época. Aos olhos dos tribalistas turcos, dentre muitas das falhas da sociedade islâmica de sua época, havia a tolerância relativamente maior em relação a cristãos e judeus que viviam entre muçulmanos ou que vinham como peregrinos aos lugares santos - bem como uma jihad menos comprometida contra os bizantinos.

            Os turcos objetivaram então acabar com este problema de três formas:

1.      Lutar contra a Shia heterodoxa dentro do Dar-al-Islam
2.      Ampliar a perseguição contra cristãos, especialmente peregrinos vindos aos Lugares Sagrados localizados dentro do Dar-al-Islam
3.      Jihad vigorosa contra Bizâncio

            Os constantes sangramentos ao qual o império turco foi submetido, tanto por parte de muçulmanos quanto de seus inimigos cristãos bizantinos, bem como o fato de estes últimos terem buscado e conseguido este objetivo quase simultaneamente, são testemunhos da pujança bélica turca.

            As disciplinas da vida nômade, com sua ênfase em cavalaria e arco e flecha de montaria, tornaram os turcos esmagadoramente eficazes em ataques de assalto e na guerra. Os ataques de assalto dos seljúcidas na Armênia, que começaram na década de 1020, devastaram este país e iniciaram especulações entre os príncipes e sacerdotes armênios de que o fim do mundo estaria próximo. O que tornou estes ataques de assalto especialmente difíceis de rechaçar era o seu caráter constante, muito embora avulso. As tropas de ataques de assalto operavam frequentemente de forma independente. Mesmo os tratados que os bizantinos negociaram com os príncipes turcos ou com o califa não eram capazes de conter estes militares de assalto que se consideravam ghazis e que, frequentemente, obtinham a aprovação verbal de seus senhores para promover seus ataques.

            Estes ataques avulsos escravizavam milhares de cristãos anualmente, ameaçavam o comércio e a agricultura ao longo das fronteiras, além de fustigar as defesas armênias e bizantinas. Porém o pior ainda estava por vir. Alp Arslan ('o Leão Valente'), príncipe turco que unificou os seljúcidas em 1063 e que eventualmente alcançou a grande vitória na batalha de Mantzikert (contra os bizantinos), promoveu ataques de assalto de tal brutalidade e escopo que os cronistas cristãos referiam-se a ele como o 'bebedor de sangue' e uma das forças do Anticristo.

            Ele bem fez por merecer esta reputação. Mateus de Edessa, um historiador armênio, descreve o saque de Alp Arslan à cidade de Ani, a capital da Armênia em 1064 (próxima à atual Arpaçay), a qual as crônicas seljúcidas descrevem como 'grande cidade florescente com 500 igrejas':

O exército entrou na cidade, massacrou seus habitantes, pilhou e queimou-a à ruína, tornando prisioneiros todos os que escaparam do massacre e tomando posse dela. [O número de mortos era tamanho] que eles bloqueavam todas as ruas e não se podia passar sem andar sobre eles. O número de prisioneiros não foi menor do que 30.000 almas.

Eu queria entrar na cidade e vê-la com meus próprios olhos. Tentei encontrar uma rua através da qual não precisasse andar sobre corpos. Mas isso era impossível.

As ruínas da cidade armênia de Ani, situada dentro do território hoje ocupado pela Turquia, como visto da Armênia (Creative Commons)

            Os Anais dos Turcos Seljúcidas (N.T.: coleção de crônicas muçulmanas de autoria de Ibn al-Athir) que descreve uma série inteira de campanhas que Arp Arslan promoveu na Armênia naqueles anos - incluindo a destruição de numerosas cidades e monastérios - corrobora a história de Mateus de Edessa. Em palavras que expressam tão pouco remorso pelos custos da jihad quanto os cronistas (muçulmanos) das Cruzadas mostraram quando descrevendo a queda de Jerusalém, os Anais relatam:

Eles entraram na cidade e mataram mais habitantes do que se podia contar. Tantos que muitos muçulmanos não podiam entrar na cidade porque tantos corpos havia. Eles levaram cativos tantos quantos eles mataram.

As boas novas destas conquistas viajaram por estas terras e os muçulmanos se alegraram. O relato... foi lido em voz alta em Bagdá no palácio do califado e o califa publicou um édito louvando e abençoando Arp Arslan.


            O saque de Ani provou ser a chave para Anatólia. Pelos próximos vários anos, Arp Arslan e outros militares turcos seljúcidas tornaram-se mais ousados em seus ataques, saqueando santuários importantes tais como o de São Basílio de Capadócia, e, em 1070, capturando Colossas, um local famoso por seu santuário do arcanjo (Miguel) (o qual os turcos prontamente transformaram em um estábulo).
           
            E então, no ano seguinte, o Imperador Romanus liderou seu exército bizantino à batalha. Não correu bem para ele.

            A batalha de Mantzikert foi uma das batalhas mais decisivas, e não obstante desconhecidas, do início da Idade Média. As forças de Arp Arslan destruíram o exército de Romanus, tomando o imperador ele próprio como prisioneiro. O pânico que tomou Bizâncio foi tão completo quanto a alegria no Dar-al-Islam, cujos exércitos haviam lutado contra Bizâncio por séculos sem terem alcançado tamanho sucesso. A derrota de Bizâncio tornou-se ainda mais terrível pelos esforços bem sucedidos dos rivais de Romanus em tomar o trono durante seu cativeiro. A curta porém terrível guerra civil que se seguiu após o retorno de Romanus, que reclamou o seu trono e queria pagar o resgate que ele havia negociado com Arp Arslan, fez com que os militares se concentrassem em Constantinopla. Como resultado, as defesas orientais de Bizâncio foram estilhaçadas e o império dividiu-se. Os turcos tiveram pouco trabalho em recolher os restos.

            As guerras que se seguiram não foram uma conquista no sentido tradicional. Os turcos eram muito poucos em números para subjugar completamente esta região, um pouco menor do que o Texas e contendo milhões de cristãos. Ao invés disto, seus ataques contínuos por toda a Anatólia permitiram-lhes expulsar, escravizar ou empobrecer os habitantes da região, ao longo do tempo. Pelos 300 anos seguintes, a população decaiu a quase a metade, a despeito da contínua imigração muçulmana à região. A maior parte destes territórios, anteriormente férteis, tornou-se terra de pasto para os turcos ainda nômades, enquanto que muitas cidades tornaram-se em ruínas. Da mesma forma que a Espanha meridional seria devastada 500 anos mais tarde pela expulsão de sua população muçulmana, Anatólia tornou-se um deserto sob o jugo de seus novos senhores estrangeiros e religiosamente intolerantes. Além disto, a perda de Anatólia combaliu permanentemente Bizâncio. O despedaçado escudo oriental da Cristandade provou-se um alvo fácil para os ghazis do Dar-al-Islam contornarem e eventualmente despedaçarem nos séculos seguintes à batalha de Mantzikert.

            Uma vez tendo os turcos terminaram com a Cristandade oriental, o portal para a conquista do restante da Europa estava aberto.

NOSSOS INIMIGOS, NOSSOS PROFESSORES

            É lugar-comum alegar que os cruzados causaram cicatrizes no imaginário do mundo muçulmano por séculos. Nacionalistas e islamistas árabes modernos têm por vezes apontado para os cruzados como a fonte de visões anti-ocidentais no Oriente Médio, porém isto é simplesmente incorreto. Bernard Lewis, um dos mais destacados estudiosos ocidentais do Islã, demonstrou que a Cristandade ocidental permaneceu após as Cruzadas como um tema de relativamente pouco interesse para muçulmanos por séculos. Apesar das campanhas duramente promovidas pelos cruzados, a ignorância árabe e posteriormente turca acerca dos aspectos da geografia e cultura da Europa durante e após esta luta, mesmo os mais básicos, poderia fazer um moderno estudante de graduação enrusbescer. Por séculos, a Cristandade Ocidental permaneceu como uma área de fronteira para os muçulmanos, contra a qual eles continuaram a promover a guerra de forma bem sucedida, até quase o começo da era moderna. Além disto, a Europa despertou pouco interesse nestes últimos.

            Desde o início, a Cristandade pagou um preço alto para se manter frente às jihads do Dar-al-Islam. As guerras que o Islã promoveu contra a Cristandade - e os contra-ataques desta - degeneraram em guerras notavalmente sujas que frequentemente conferiram poder aos piores impulsos em ambas as fés. Para os cristãos, estas lutas abriram uma caixa de Pandora de males: elas proporcionaram um ímpeto renovado ao anti-semitismo popular na Idade Média, bem como ajudaram a reforçar a participação cristã no comércio de escravos durante os séculos 15 a 16. Uma radicalização que tenebrosamente precedeu as discussões atuais nos Estados Unidos acerca do uso da tourtura como um meio legítimo de combater a ameaça jihadista.

            De toda forma, os frutos da vitória do Islã frequentemente se estragavam. A tolerância intermitente, porém relativamente maior, que caracterizava as relações do Islã com outros 'povos do livro' do Oriente Médio, Espanha muçulmana e Bálcãs, não era a tolerância característica dos vitoriosos em seu triunfo. Mesmo em meio ao triunfo, entretanto, esta tolerância era misturada com desprezo. As pressões da jihad que deflagraram as Cruzadas ocidentais levaram os muçulmanos a abusarem de seu poder sobre seus súditos cristãos e judeus sob o Dar-al-Islam, em campanhas de conversão forçada, pogroms (N.T.: espécie de 'arrastão' saqueador e assassino) e outas brutalidades. Na era moderna, à medida em que o passo do avanço islâmico desacelerou e a maré começou a virar à favor do Ocidente, a tradição de tolerância do Dar-al-Islam também colapsou. A magnanimidade da vitória demonstrou ter sido uma experiência limitada demais para os muçulmanos estabelecerem a tolerância como parte chave de sua cultura religiosa.

            Da mesma forma que a História natural mostra que Deus é particularmente fã de insetos, a História humana demonstra Seu deleite por paradoxos e por dialética. O terror da jihad deu origem ao zelo cruzadista no século 11, o qual ajudou a retardar o posterior avanço do Islã em direção ao ocidente. Em face às jihads cada vez mais bem sucedidas nos séculos 15 e 16, o Cristianismo por sua vez tornou-se mais agressivo e expansivo do que jamais fora. A Cristandade tornou-se bem sucedida em acumular poder e recursos através da colonização do hemisfério ocidental, comprometendo o status do Dar-al-Islam como intermediário no comércio com a Ásia e eventualmente quebrando o poder hegemônico do Islã na Eurásia. Entretanto, ao mesmo tempo em que a Cristandade experimentava seus maiores triunfos através da descoberta e colonização do Novo Mundo, os cristãos direcionaram suas próprias forças militarizadas domesticamente, em nome da segurança religiosa, ameaçada pela Reforma. Desta forma terminaram, não intencionalmente, minando esta mesma Cristandade, deixando uma Europa Ocidental secularizante como sequela.

            Ironicamente, então, os sucessos das jihads islâmicas em última instância fortaleceram e construíram um Dar al-Harb mais resistente do que nunca ao avanço do Islã, à medida em que aliviaram os cristãos ocidentais do peso da continuidade de suas batalhas sob a forma de guerras. Enquanto que a jihad não é menos aterrorizante agora do que tem sido por séculos, diferentemente do passado, seu terror contínuo contém uma ansiedade e uma futilidade subjacentes, aos olhos de seus devotos. Esta impressão se assenta tanto na constatação acerca da inaptidão dos candidatos a ghazis modernos de utilizar qualquer coisa que seja, exceto o medo, para alcançar seus objetivos, bem como na subversão da unidade religiosa, social e política das fechadas sociedades muçulmanas, promovida pelo Ocidente secular.


            Esperemos que o nihilismo e o isolamento da militância jihadista pressagiem a renúncia da violência sacralizada pelos fiéis muçulmanos. Tal desdobramento libertaria do bem-merecido estigma de brutalidade religiosa, todos aqueles que clamam pelo nome do Deus Único.